Viagem ao passado

Recentemente, por motivos de força maior, tive de regressar a Portugal.

Regressei para me reencontrar, para reencontrar os meus, mas fiz muito mais do que isso.

É difícil estar todo este tempo afastado da terra, dos amigos, da família, e regressar como se nada fosse.

Quando parti para o Japão, para esta aventura que já leva cinco anos, levava comigo muito mais do que 30 kg de bagagem. Levava curiosidade por este país, levava frustração do ambiente onde me encontrava, levava um orgulho ferido pelo meu esforço não ser recompensado da forma que idealizava, mas levava acima de tudo uma enorme vontade de descobrir a minha identidade. Sentia que o meu lugar não era aqui, e que estava na hora de fazer as malas e partir à descoberta. Quiçá um dos meus antepassados tenha sido um descobridor marítimo.

Levava, no entanto, uma bagagem a mais. O ego. Muito por minha culpa, mas também pela influência da sociedade em que fui criado, ia com um sentimento demasiado elevado daquilo que sabia fazer. Como é óbvio não retirando o meu valor como pessoa, mas superiorizando as minhas capacidades quando comparado com os outros.

Tudo isto vem do passado, da minha infância, em que “eu sabia tudo e os outros não sabiam nada”. Este sentimento de superioridade era alimentado pelas pessoas à minha volta, que me colocavam no topo. Estava orgulhoso do “patamar” a que tinha chegado no meu pequeno mundo, mas frustrado por não conseguir mais.

Este orgulho foi sendo “deteriorado”, ou digamos, “apaziguado”, com a ida para outros ambientes, que me mostraram que o mundo era bem maior do que pensava. Mas ainda havia uma réstia daquele ego. E foi essa réstia que foi juntamente com a minha bagagem.

Todo este orgulho, este inchaço no ego, foi abalado com esta minha viagem. Foi duro. Mas era a realidade.

No entanto, e dada a forma como encarava a situação, senti-me muito mais “lixo” do que era. Esta realidade distorcida estava só na minha cabeça. O valor de uma pessoa ou o que ela sabe e consegue fazer não altera com o meio onde se encontra. Portanto, esta sensação de “desaprendizagem” é completamente falsa. Apenas a sede de querer mais e melhor leva à frustração de não conseguir segurar o mundo nas mãos.

Cada um é como é. Não vale a pena querer outra coisa que não aquilo que somos, pois essa será apenas uma caminhada por uma montanha cuja única descida é a queda livre.

Foi esta a lição que aprendi.

Por mais que o mundo nos imponha regras, por mais que os outros nos digam como temos de ser ou o que temos de fazer, somos NÓS que decidimos a nossa vida. E quem disser o contrário, das duas uma, ou é uma ovelha num rebanho que apenas vai para onde o pastor manda, ou é… o pastor. Pois eu proponho ser uma ovelha que “foge” do rebanho. Chega de seguir os outros e ir na onda. Chega de estar nas tintas. Vamos usar a nossa cabeça e seguir o nosso próprio caminho.

E neste período que estive em Portugal aprendi muito sobre mim mesmo. Fiz muitas coisas que já devia ter feito há mais tempo mas não fazia por vergonha ou por “não apetecer”. Fiz os possíveis e os impossíveis por construir pilares onde estes não existiam, ou por reparar os que estavam fracos. Fiz os possíveis e os impossíveis por construir pontes entre margens mais próximas do que a maioria pensa. Sabe bem fazer o bem. Ou pelo menos tentar.

No entanto, dada a minha personalidade, não faço pontes para ilhas “sem matéria-prima”. Quem quiser, que vá de barco e enfrente as ondas e as correntes aleatórias que esses mares estranhos escondem. Para isso não contem comigo. E foi esta outra lição que aprendi. Usemos as nossas forças e energias no que vale a pena. E o que não vale, ponhamos no seu devido lugar. Experimentem pôr uma fruta podre no meio de cem frutas sãs e esperem para ver o resultado.

Seja pela experiência que tenho vivido, seja pela minha personalidade, ou seja lá pelo que for, o que é certo é que durante este período muita gente descarregou sobre mim as suas angústias, as suas preocupações, as suas mágoas, as suas tristezas, as suas zangas, desabafos com anos de vida (com raízes mais antigas até que as minhas), queixas sobre as quais nada posso fazer, lamentações demasiadas, e por aí fora.

Fico triste, porque os problemas resolvem-se todos de uma forma tão simples! Com DIÁLOGO e COMUNICAÇÃO com HUMILDADE. É tudo o que tenho feito. Dialogar, conversar, comunicar, ouvir, escutar, opinar. E é o que sugiro a todos vós que estão a ler isto. Não se justifiquem com a falta de tempo. Não se justifiquem com opiniões de terceiros. Não se justifiquem com o fulano tal levar a mal, e por isso adiar decisões importantes por tempo indeterminado. Não se justifiquem com rigorosamente nada. O mundo só muda se cada um mudar a sua postura. Se não estivermos dispostos a mudar, como podemos esperar que o mundo mude? Já se esqueceram da lição de humildade que os nossos jogadores deram em França? Já? O povo esquece-se das coisas depressa! Ou será que só convém lembrar às vezes?

Estar lá fora todo este tempo permite ver as coisas de outra perspectiva. ABRAM OS OLHOS. O PROBLEMA NÃO SÃO “ELES”! O PROBLEMA SOMOS “NÓS”!

Sejamos humildes e assumamos as nossas responsabilidades. Sejamos humildes e ouçamos o que os outros têm para dizer. Sejamos humildes e queiramos o bem dos outros. É certo que não temos um governo que sirva de bom exemplo, mas somos nós que o pomos lá. E é triste quando se ouve pessoas dizerem “se eu estivesse lá fazia o mesmo”. Que gente somos nós afinal? Eu não acredito em democracias. Pelo menos não nas nossas. Se 1 estiver certo e 99 estiverem errados, de que vale a democracia? Mas mesmo nessas condições, eu prefiro perder, ser o único certo, e lutar pelo certo e pelo justo.

Com todas estas conversas, estes diálogos com pessoas amigas que prezo e respeito há muitos anos, fiquei muito feliz por ainda ser alguém com quem quiseram falar, e alguém merecedor da sua confiança. E assim continuarei a ser. Nada me dá mais alegria do que conseguir que aqueles que me são queridos esbocem um sorriso em tempos complicados.

Gostava de ver as pessoas mais unidas, mais humildes, e com vontade de lutar por causas comuns, porque se não for assim, ninguém vai a lado nenhum.

O passado… esse já lá vai. A única coisa que podemos fazer é construir um futuro melhor. Por isso, mãos à obra! 🙂

future


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